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domingo, 18 de junho de 2017

Quanto vale um homem?



Estou assim como que parva,
sem palavras,
sem gestos, sem vontade,
tolhida pela raiva.
Tenho o coração fora do peito
e as lágrimas presas às imagens de inferno
que as notícias me trazem.
Algo me diz que há por aí
um deus mal informado ou cruel
ou cruel e mal informado
que consente tragédias assim.
Por mais que tente
– e não paro de tentar –
não consigo tolerar este tremendismo,
este exagero de dor,
esta tirania  da impotência.
Num tempo em que a ilusão
é a de ter as rédeas de tudo bem presas aos punhos
esta incapacidade de controlo
desmonta todas as certezas,
cava um abismo de indescritíveis desassossegos
e acende um medo sem fim.
Fico sem ter mar onde me agarrar
O mundo vai-se consumindo em chamas
e eu cada vez mais fábula.
Afinal quanto vale um homem?


2017-06-18

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Ilusão



Tento pintar o dia
com a cor dos risos
que me sobram da infância.
Equilibro as memórias no gume dos dias
e ouço deliciada o eco das cores
e dos cheiros distantes.
Deixo que as horas se desfaçam
em outras horas cada vez mais miudinhas
e respiro o encanto em sílabas lentas
suspensas nos andaimes da lembrança.

Troco tudo pelo sortilégio dos dias sem sombras,
das vozes pequeninas,
dos sorrisos redondos e frescos,
dos olhares sem fantasmas,
do gargalhar de cristal deixando antever dentes miudinhos,
dos cheiros bons a terra, a erva e a rio
das cerejas macias,
das talhadas de melancia muito vermelhas
e túrgidas de doçuras insuspeitas.

Hoje tento ignorar possíveis intimidades com o futuro
e troco tudo pela ilusão de ser pequenina outra vez.


2017-06-01

terça-feira, 23 de maio de 2017

23 de Maio de 2017 (Manchester)

Imagem de Waleria Lima

Tenho a mão agrafada a palavras
que não querem sair
que não passam de pensamento, de choro,
de fogo cravado em carne, em sangue.

Tingiram-se os girassóis de vermelho,
calados pelo idioma do terror,
pelo frio dos corpos caídos.

Não sei que fazer com esta ave negra
que me esvoaça na alma

E cresce em mim
uma dor de granito com raízes fundas,
uma febre imensa e má,
um medo que esmago nos dentes.

Como sacudir a estupidez, o ódio,
a intolerância, a ignorância?
Como matar a ave negra?



23-05-2017