sábado, 25 de abril de 2026

                                                           Aguarela de Manuela Silva

O cravo vermelho

 

Ofereceram-me um cravo.

É vermelho esse cravo.

Não é um cravo daqueles que cresce 

de raízes presas à terra.

Não, é dos que nascem da vontade 

e dos sonhos de alguém.

 

Coloquei-o no peito porque é Abril 

e porque com ele despertaram 

os sons azuis das gaivotas.

Daquelas que voam, 

das que têm asas  de vento.

Das que dizem que nenhum silêncio é eterno

quando a vontade se levanta.

 

Acordaram também as memórias 

de uma tal vila morena 

onde em cada esquina se encontra um amigo. 

Daqueles que oferecem cravos 

vermelhos, lindos.

Dos que nos fazem reacender a esperança.

Dos que sabem que a liberdade 

só o é quando cabe em todos.

Daqueles que trazem no rosto 

a dignidade de se ser inteiro.

Dos que nos fazem ainda acreditar.

 

Trago este cravo no peito porque julgo 

que a liberdade se rega todos os dias, 

que a igualdade se constrói com passos certos

e que a solidariedade pode começar 

no gesto simples de estender a mão.

 

É Abril

e eu tenho um cravo vermelho!

 

Celeste Pereira

2026-04

segunda-feira, 2 de março de 2026



Ana

Tu sabes como eu gosto de palavras.

Agora mais ainda. 

Aprendi a saboreá-las, 

a arredondar-lhes as sílabas, 

a deixá-las escorregar devagarinho, 

enquanto lhes aprecio o gosto 

ao  dissolverem-se lentamente entre salivas.

 

Sabes também como gosto de as usar,

de lhes investigar assombros

de lhes ouvir as suas vozinhas de grilo

depois de voltearem inquietas

dentro da minha cabeça.

 

Porém, hoje, por mais que procure

não encontro nenhuma digna de ti, 

de te felicitar. 

Não lhes adivinho o fogo, a cor , o odor.

São metáforas muito gastas

de uma titubeância avassaladora.

Acho que já as gastei todas, 

as que valiam a pena, 

as que merecias.

 

Que dizer-te? 

Que quando nasceste me nasceu abril por dentro?

Que se instalou em mim uma felicidade fininha

que ainda hoje sinto quando te olho, 

quando te ouço, quando penso em ti?

Que ganhei uma filha, uma companheira, 

uma amiga, um amparo?

 

Tudo isto já te tinha dito 

e não acho mais palavras.

As que surgem contenho-as num ato de prudência, 

não te fazem jus.

E embora as embrulhe cuidadosamente em ternura, 

chegam gastas, macilentas, despojadas de sentido. 

 

Enfim, talvez baste uma palavra pequena,

sem grandeza, sem ornamentos. 

Uma palavra singela,  inteira, plena de verdade.

Uma palavra que seja como que um segredo nosso, 

apenas sussurrado.

 

Acho que encontrei. 

E diz tudo.

Tu és gutpela tru! 

Parabéns!

 

Celeste Pereira

2026-03-02