sexta-feira, 2 de junho de 2017

Ilusão



Tento pintar o dia
com a cor dos risos
que me sobram da infância.
Equilibro as memórias no gume dos dias
e ouço deliciada o eco das cores
e dos cheiros distantes.
Deixo que as horas se desfaçam
em outras horas cada vez mais miudinhas
e respiro o encanto em sílabas lentas
suspensas nos andaimes da lembrança.

Troco tudo pelo sortilégio dos dias sem sombras,
das vozes pequeninas,
dos sorrisos redondos e frescos,
dos olhares sem fantasmas,
do gargalhar de cristal deixando antever dentes miudinhos,
dos cheiros bons a terra, a erva e a rio
das cerejas macias,
das talhadas de melancia muito vermelhas
e túrgidas de doçuras insuspeitas.

Hoje tento ignorar possíveis intimidades com o futuro
e troco tudo pela ilusão de ser pequenina outra vez.


2017-06-01

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