terça-feira, 23 de maio de 2017

23 de Maio de 2017 (Manchester)

Imagem de Waleria Lima

Tenho a mão agrafada a palavras
que não querem sair
que não passam de pensamento, de choro,
de fogo cravado em carne, em sangue.

Tingiram-se os girassóis de vermelho,
calados pelo idioma do terror,
pelo frio dos corpos caídos.

Não sei que fazer com esta ave negra
que me esvoaça na alma

E cresce em mim
uma dor de granito com raízes fundas,
uma febre imensa e má,
um medo que esmago nos dentes.

Como sacudir a estupidez, o ódio,
a intolerância, a ignorância?
Como matar a ave negra?



23-05-2017

sábado, 6 de maio de 2017

Às mães

A minha mãe, a minha tia (também uma Mãe) e eu

As mães são lindas! 
Mesmo quando o não são, 
são lindas. 
São lindas e cheiram muito bem. 
E têm um colo macio e morno
com a dimensão exacta,
de todos os nossos tumultos,
de todos os nossos silêncios,
de todos os nossos desejos.
São portos de quietude
e guardam em si a memória
de todo o tempo.
Têm mãos enormes e doces
que nos tocam com a brandura das ondas,
e nos aquecem, nos confortam
e empurram mansamente as tristezas. 
Acendem luzes nos corredores mais escuros
por onde, por vezes, vagueamos perdidos.
Estão lá naquele preciso momento
em que nos sobra a felicidade
e não sabemos onde vertê-la, 
ou então nos falta muito
e tudo ameaça quebrar-se.
Estão apenas lá
e, sendo tão pouco,
é tudo.
E mesmo de peles vincadas,
de cabelos encanecidos,
de andares hesitantes,
de costas encurvadas,
de falas inseguras
são lindas!
E têm estrelas nos olhos.

Celeste Pereira
2017-05-06