domingo, 30 de julho de 2017

A avó Alice

Avó Alice e mamã

Creio que já vos falei da avó Alice.
A avó Alice era a minha avó.
Era uma mulher baixinha e redonda,
muito branca e cheia de luz.
Era uma espécie de lua cheia
mas muito mais quentinha.
Tinha um colo pequenino
onde eu gostava de me sentar
a descansar de ser criança.
Tinha o tempo entalhado nas mãos
que eram poços de ternura e
cheiravam a leite creme 
com um pozinho de canela.
Tinha olhos de rir, suaves e doces.
Porém, às vezes, o seu olhar era
atravessado por rios inquietos
que me inquietavam muito,
também,
por não os entender nem os segurar.
Tinha a tranquilidade de uma carícia boa
assim um tanto ao jeito
de quem não conhece a pressa
ou não lhe importa.
Estar com a avó Alice
era quase como escutar um mar sem rumores
ou perder-me no bocejo de uma noite de Verão.

Chamava-se Alice
e era a minha avó.

E a falta que me fazia hoje uma avó!

2017-07-26

Celeste Pereira

domingo, 18 de junho de 2017

Quanto vale um homem?



Estou assim como que parva,
sem palavras,
sem gestos, sem vontade,
tolhida pela raiva.
Tenho o coração fora do peito
e as lágrimas presas às imagens de inferno
que as notícias me trazem.
Algo me diz que há por aí
um deus mal informado ou cruel
ou cruel e mal informado
que consente tragédias assim.
Por mais que tente
– e não paro de tentar –
não consigo tolerar este tremendismo,
este exagero de dor,
esta tirania  da impotência.
Num tempo em que a ilusão
é a de ter as rédeas de tudo bem presas aos punhos
esta incapacidade de controlo
desmonta todas as certezas,
cava um abismo de indescritíveis desassossegos
e acende um medo sem fim.
Fico sem ter mar onde me agarrar
O mundo vai-se consumindo em chamas
e eu cada vez mais fábula.
Afinal quanto vale um homem?


2017-06-18

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Ilusão



Tento pintar o dia
com a cor dos risos
que me sobram da infância.
Equilibro as memórias no gume dos dias
e ouço deliciada o eco das cores
e dos cheiros distantes.
Deixo que as horas se desfaçam
em outras horas cada vez mais miudinhas
e respiro o encanto em sílabas lentas
suspensas nos andaimes da lembrança.

Troco tudo pelo sortilégio dos dias sem sombras,
das vozes pequeninas,
dos sorrisos redondos e frescos,
dos olhares sem fantasmas,
do gargalhar de cristal deixando antever dentes miudinhos,
dos cheiros bons a terra, a erva e a rio
das cerejas macias,
das talhadas de melancia muito vermelhas
e túrgidas de doçuras insuspeitas.

Hoje tento ignorar possíveis intimidades com o futuro
e troco tudo pela ilusão de ser pequenina outra vez.


2017-06-01