terça-feira, 29 de junho de 2021


Estive impossibilitada de publicar neste espaço alguns anos sem perceber muito bem porquê. 

Eu tinha um domínio próprio que entretanto não consegui renovar apesar do muito empenho que coloquei nessa renovação. 

Por outro lado, mesmo não renovando, era suposto o espaço reverter automaticamente para o domínio "blogspot". Assim eram as condições iniciais tal como as entendi. 

Mas nada disso aconteceu e eu fiquei impedida de entrar no meu blog.

Durante muito tempo fui tentando, mandei emails que nunca foram respondidos, tentei outras formas de comunicação sempre sem qualquer sucesso.

Desisti. Se calhar nem era assim tão importante com as novas formas de comunicar que se abriam com os facebook, twiters, instagrams e por aí fora

Hoje, tinha no email a notificação de um comentário para um texto que tinha escrito em 2010....

Fiquei curiosa e tentei (até já nem sei muito bem como se faz) entrar no blogue. 

Consegui, acho eu. Agora vamos lá ver se consigo publicar o que estou a escrever. 

Confesso que fiquei contente. 

E, num dia que é tremendamente triste para mim, esta pequenina alegria aqueceu-me a alma.

É que eu gosto mesmo
do meu blogue. 



domingo, 30 de julho de 2017

A avó Alice

Avó Alice e mamã

Creio que já vos falei da avó Alice.
A avó Alice era a minha avó.
Era uma mulher baixinha e redonda,
muito branca e cheia de luz.
Era uma espécie de lua cheia
mas muito mais quentinha.
Tinha um colo pequenino
onde eu gostava de me sentar
a descansar de ser criança.
Tinha o tempo entalhado nas mãos
que eram poços de ternura e
cheiravam a leite creme 
com um pozinho de canela.
Tinha olhos de rir, suaves e doces.
Porém, às vezes, o seu olhar era
atravessado por rios inquietos
que me inquietavam muito,
também,
por não os entender nem os segurar.
Tinha a tranquilidade de uma carícia boa
assim um tanto ao jeito
de quem não conhece a pressa
ou não lhe importa.
Estar com a avó Alice
era quase como escutar um mar sem rumores
ou perder-me no bocejo de uma noite de Verão.

Chamava-se Alice
e era a minha avó.

E a falta que me fazia hoje uma avó!

2017-07-26

Celeste Pereira

domingo, 18 de junho de 2017

Quanto vale um homem?



Estou assim como que parva,
sem palavras,
sem gestos, sem vontade,
tolhida pela raiva.
Tenho o coração fora do peito
e as lágrimas presas às imagens de inferno
que as notícias me trazem.
Algo me diz que há por aí
um deus mal informado ou cruel
ou cruel e mal informado
que consente tragédias assim.
Por mais que tente
– e não paro de tentar –
não consigo tolerar este tremendismo,
este exagero de dor,
esta tirania  da impotência.
Num tempo em que a ilusão
é a de ter as rédeas de tudo bem presas aos punhos
esta incapacidade de controlo
desmonta todas as certezas,
cava um abismo de indescritíveis desassossegos
e acende um medo sem fim.
Fico sem ter mar onde me agarrar
O mundo vai-se consumindo em chamas
e eu cada vez mais fábula.
Afinal quanto vale um homem?


2017-06-18

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Ilusão



Tento pintar o dia
com a cor dos risos
que me sobram da infância.
Equilibro as memórias no gume dos dias
e ouço deliciada o eco das cores
e dos cheiros distantes.
Deixo que as horas se desfaçam
em outras horas cada vez mais miudinhas
e respiro o encanto em sílabas lentas
suspensas nos andaimes da lembrança.

Troco tudo pelo sortilégio dos dias sem sombras,
das vozes pequeninas,
dos sorrisos redondos e frescos,
dos olhares sem fantasmas,
do gargalhar de cristal deixando antever dentes miudinhos,
dos cheiros bons a terra, a erva e a rio
das cerejas macias,
das talhadas de melancia muito vermelhas
e túrgidas de doçuras insuspeitas.

Hoje tento ignorar possíveis intimidades com o futuro
e troco tudo pela ilusão de ser pequenina outra vez.


2017-06-01