segunda-feira, 2 de março de 2026



Ana

Tu sabes como eu gosto de palavras.

Agora mais ainda. 

Aprendi a saboreá-las, 

a arredondar-lhes as sílabas, 

a deixá-las escorregar devagarinho, 

enquanto lhes aprecio o gosto 

ao  dissolverem-se lentamente entre salivas.

 

Sabes também como gosto de as usar,

de lhes investigar assombros

de lhes ouvir as suas vozinhas de grilo

depois de voltearem inquietas

dentro da minha cabeça.

 

Porém, hoje, por mais que procure

não encontro nenhuma digna de ti, 

de te felicitar. 

Não lhes adivinho o fogo, a cor , o odor.

São metáforas muito gastas

de uma titubeância avassaladora.

Acho que já as gastei todas, 

as que valiam a pena, 

as que merecias.

 

Que dizer-te? 

Que quando nasceste me nasceu abril por dentro?

Que se instalou em mim uma felicidade fininha

que ainda hoje sinto quando te olho, 

quando te ouço, quando penso em ti?

Que ganhei uma filha, uma companheira, 

uma amiga, um amparo?

 

Tudo isto já te tinha dito 

e não acho mais palavras.

As que surgem contenho-as num ato de prudência, 

não te fazem jus.

E embora as embrulhe cuidadosamente em ternura, 

chegam gastas, macilentas, despojadas de sentido. 

 

Enfim, talvez baste uma palavra pequena,

sem grandeza, sem ornamentos. 

Uma palavra singela,  inteira, plena de verdade.

Uma palavra que seja como que um segredo nosso, 

apenas sussurrado.

 

Acho que encontrei. 

E diz tudo.

Tu és gutpela tru! 

Parabéns!

 

Celeste Pereira

2026-03-02