Ana
Tu sabes como eu gosto de palavras.
Agora mais ainda.
Aprendi a saboreá-las,
a arredondar-lhes as sílabas,
a deixá-las escorregar devagarinho,
enquanto lhes aprecio o gosto
ao dissolverem-se lentamente entre salivas.
Sabes também como gosto de as usar,
de lhes investigar assombros
de lhes ouvir as suas vozinhas de grilo
depois de voltearem inquietas
dentro da minha cabeça.
Porém, hoje, por mais que procure
não encontro nenhuma digna de ti,
de te felicitar.
Não lhes adivinho o fogo, a cor , o odor.
São metáforas muito gastas
de uma titubeância avassaladora.
Acho que já as gastei todas,
as que valiam a pena,
as que merecias.
Que dizer-te?
Que quando nasceste me nasceu abril por dentro?
Que se instalou em mim uma felicidade fininha
que ainda hoje sinto quando te olho,
quando te ouço, quando penso em ti?
Que ganhei uma filha, uma companheira,
uma amiga, um amparo?
Tudo isto já te tinha dito
e não acho mais palavras.
As que surgem contenho-as num ato de prudência,
não te fazem jus.
E embora as embrulhe cuidadosamente em ternura,
chegam gastas, macilentas, despojadas de sentido.
Enfim, talvez baste uma palavra pequena,
sem grandeza, sem ornamentos.
Uma palavra singela, inteira, plena de verdade.
Uma palavra que seja como que um segredo nosso,
apenas sussurrado.
Acho que encontrei.
E diz tudo.
Tu és gutpela tru!
Parabéns!
Celeste Pereira
2026-03-02