segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Hoje gosto do Natal

A minha mesa de Natal (pormenor)

Sim, gosto do Natal
Gosto das luzes, dos sons,
dos cheiros que vão acendendo na alma
uma euforia antiga e boa.
Sim, gosto de olhar a árvore
que já não cheira a nada mas brilha muito
e se eleva majestosa na sala.
Gosto das laçadas, dos presépios,
dos dourados, dos presentes
e dos anjinhos que esvoaçam delirantes
numa realidade fingida.
Gosto do odor aceso da lareira
e da sua luz que incendeia os vazios
e preenche os silêncios excessivos.
Gosto da cozinha, pequena para tantos,
da mesa, enorme nesse dia,
com muitos pratos, muitos copos,
muitas vozes, muitas vidas.
Gosto da Mariah Carey a cantar All I want for Christmas,
do Sozinho em casa, da Música no Coração,
do Dia de Natal do Gedeão, das rabanadas a cheirar a canela,
das luzes do jardim que brilham na noite vazia de estrelas...
E gosto dos excessos, do alarido das cores,
do tempo coalhado de cheiros, dos risos,
do eco dos pequenos instantes que dissipam brumas escondidas
e atenuam pequenas raivas incontidas...
e da respiração mansa da noite quando o silêncio se instala.

Gosto do Natal, hoje.


2016-12-22

domingo, 6 de novembro de 2016

Não ligues



Ontem,
eu disse-te,
estava triste.

Não ligues,
é apenas aquela porção de pequenas coisas,
ou não tão pequenas assim,
que nos mordem os calcanhares
e nos deixam as pernas nuas
e em carne viva.
As respirações ficam mais urgentes
E sentimos muito o queimar dos dias.

Ontem,
eu disse-te,
conheci por dentro o sabugo das pedras.

Juntei todos os ramos secos,
todas as infâncias, todos os fragores,
todos os sonhos, todas as palavras
e fiz deles sangue que apertei nos punhos.

Foi ontem,
eu disse-te.


Não ligues.

2016-10-06

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Sabes

Sabes, hoje sinto-me triste
Estou de alma rasgada
presa na saudade do futuro
e choro

sabes, hoje despi-me de metáforas
e esboço gestos que me prendem às pedras.
Interrompo o desabrochar dos sonhos
que se perdem tontos
nas franjas de uma gramática dorida
e tinjo as pálpebras de névoa

sabes, hoje prendi as imagens, os sons, os odores
que se esgueiravam pelas traseiras do tempo
e construí uma grafia de promessas e de saudades

sabes, hoje sou eu, inteira
de alma mordida
presa no sufoco doce e lento
do ranger do tempo.


2016-09-26