terça-feira, 8 de novembro de 2011

rapaz solteiro procura rapariga interessada

Ilustração de Filipe Pinto aka Corcoise

a norma diz que as raparigas

fazem tudo de propósito. é um
modo de dizer que o propósito das
raparigas são os rapazes, e que não
pensam em mais nada. a norma
vai zangar-se quando ler este poema,
seguramente sentirá que sou
machista e que menorizei a nossa
conversa. as raparigas, segundo o que
observei, são diferentes da minha
amiga, não afirmam muitas coisas,
esperam para ver e avançam em
desespero. as raparigas, tenho a certeza,
teriam muito que aprender com a
norma, assim se mantivessem mais
decididas e estáveis em cada momento

eu queria encontrar uma rapariga como a
norma que, sem dúvidas, me suportasse num
casamento eterno e me fizesse pensar tudo
ao contrário do que penso agora

valter hugo mãe in “folclore íntimo” edições Cosmorama, (pág. 76)

laboratório de leitura poética 3


Central Park

«Posso morrer porque amei e porque fui amada. Gostei de homens, de mulheres, de velhas (de velhos não), de bebés, de bichos, de plantas, de casas, de filmes, de concertos, de quadros, de teorias, de jogos, de pastéis de nata, de jesuítas, de russos, de hamburgers, de Paris e de Londres. Nunca fui a Nova York e gostava de ir, mas não me importo de morrer sem ter ido. Também nunca tive um orgasmo, mas posso morrer sem nunca ter tido um orgasmo. Não me arrependo de nada. É claro que Nova York não se compara com um orgasmo. Um orgasmo é muito mais importante.»



LOPES, Adília, “Irmã Barata, Irmã Batata”, Braga: Angelus Novus, 2000. p. 13-14.

Há palavras que nos beijam


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Alexandre O'neill (Poeta português, 1924-198